Rio de Janeiro

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Educação e Libertação das Margens

01/04/2020 - 10:04

O século XXI tem trazido debates contínuos acerca da educação ideal: novas metodologias, perspectivas, e a inclusão tecnológica que vem sendo debatida pela Quarta Revolução Industrial. No entanto, como disse José Pacheco, “nosso maior desafio no século XXI passou a ser reaprender a amar.” (Art: Missivas:Tavira, agosto de 2003 – Revista Educação).

Esse artigo tem como objetivo compartilhar ideias de um jovem professor que acredita que a Educação do século XXI precisa ser de caráter humanitário e pioneira na luta contra as opressões e marginalização do indivíduo.

Em um dia, lá em 2017, quando estava no processo de saída dos grupos de ocupação que atuaram nas escolas no ano anterior, uma angústia muito grande surgia no peito: “Como posso mudar a Educação?”. Estudante de Segunda série no Curso de Formação de Professores, o primeiro ano havia sido frustrante por perceber que, em determinados momentos, toda a minha energia foi entregue a uma ideia partidária e distante do longo debate educacional. Sendo assim, eu queria fazer diferente, mas não conseguia entender qual era o meu propósito, qual era a minha “Luta”. Um dia conversando com a diretora da escola, ela me indicou algumas leituras e a primeira delas foi a Escola da Ponte, de José Pacheco.

Quando comecei a pesquisar, o primeiro vídeo que apareceu no Youtube foi o do Rubens Alves comentando sobre a visita na escola da Ponte. O mais inspirador é que Rubens já era Educador renomado no ano que visitou a escola em Portugal, e ainda assim, conseguiu se surpreender com a forma que ela funcionava, começando pelo fato de que os alunos a apresentavam.

Minha pesquisa continuou e cada vez mais eu fui entendendo que não existe melhor lugar para mudar a Educação do que a escola. É nela que o ser humano começa o processo de socialização, ainda na creche, e vai se desenvolvendo em todas as etapas. A escola é onde o ser humano mais estimula a personalidade; constrói afeto, aprende sobre variadas culturas, e claro, estimula todo o desenvolvimento cognitivo. Com esse pensamento resolvi buscar ser participativo nas ações da escola; participando do Grêmio Estudantil e sendo voluntário em diversas funções.

No entanto, minha segunda frustração veio nos estágios. Como a escola formava professores, precisávamos cumprir uma extensa carga horária de estágio supervisionado em várias modalidades, incluindo educação infantil e ensino fundamental. Essa etapa era, sem dúvida, a mais importante na formação e na auto afirmação sobre aquilo que nós estávamos construindo como formação. Das seis escolas em que fiz estágio, a que cumpri o Fundamental foi a mais tocante. Onde eu pude exercer de fato a função de professor, lugar que mais pratiquei e dei aula. No entanto, a escola passava por constante falta de água, reduzindo o horário das aulas. Assim, os alunos que saiam às 14h30 passaram a deixar a escola 12h. Além da Falta de Água, um problema maior acontecia: nessas ocasiões, a escola não oferecia almoço. E então minha angústia misturada com frustração continuava me fazendo pensar sobre como Mudar a Educação e Por que Ser Professor.

A escola ficava localizada em uma área de grande vulnerabilidade social, as crianças iam para a escola com as roupas sempre muito rasgadas e sujas. Constantemente ocorriam problemas com palavrões pesados e uma vontade enorme que eles tinham de brigar. Entendo que nessas situações, as crianças amadurecem mais rápido. Pois precisam demonstrar força diante da situação; Recordo-me de um diálogo sobre um prédio que caiu no bairro onde moravam. Eles falavam sobre a morte de um dos moradores com naturalidade, sem espanto. Nessas situações existe muita pressão dos pais, que muita das vezes não têm instrução, para que os filhos já se desenvolvam para colaborar dentro de casa. Por isso é comum crianças de dez, onze anos já desenvolverem certas “falas” que para lugares onde a criança só precisa ser criança, não existem.

Entretanto, o relato mais angustiante foi de um aluno sobre a merenda. Quando tocou o sinal eles podiam comer um biscoito no refeitório antes de ir embora.
Enquanto comia, esse aluno chegou próximo a mim e questionou “Coé Tio, tem comida aí hoje não?” Eu, de maneira imatura e a fim de repetir discursos disse: “Hoje nós vamos pra casa comer a comidinha da mamãe” e rapidamente levei um soco no estômago, uma espécie de voadora no rosto, quando o aluno com semblante de tristeza me respondeu: “Eu não como em casa não tio, só tem como eu comer comida aqui”. Extremamente assustado, minha reação foi dizer “Vai lá e pega mais biscoito”. É claro, que biscoito de Maisena não alimenta crianças em fase de crescimento, ninguém consegue viver bem só com lanches. Nesse dia as lágrimas caíram, a vontade de desistir mais ainda. Não sabia mais os motivos de estar ali. Passei a achar Piaget, Vygotsky e vários outros educadores teóricos perda de tempo, não fazia sentido ser rico de teoria, e não conseguir oferecer um prato de comida a um aluno.

Meus projetos, ideais, tudo que acreditava que era a Educação, foram caindo por terra. Eu ainda acreditava que o melhor lugar para mudar a Educação era a Escola, mas não é somente ela. Eu entendia escola como prédio, estrutura. No entanto, José Pacheco vai nos dizer “Quando falamos em escola pensamos no edifício, a escola não é um edifício, a escola são as pessoas”. Mas como ser Professor diante das desigualdades sociais, da criminalização e marginalização da pobreza? Como que a Educação pode nos colocar no centro do debate, ou melhor, como posso finalmente existir através da Educação?

Durante esses questionamentos, José Pacheco tinha sido a figura mais prática do processo, no entanto, ele tinha uma inspiração, que era o patrono da nossa Educação, Paulo Freire.

Os métodos Freirianos surgiram na minha frente quando eu já estava de fato revoltado comigo mesmo. Odiando esse meu desejo louco de ser professor, de querer mudar o mundo, a Educação. Minha formação já estava acabando, em um ano eu pegaria o diploma de professor de Educação Infantil e séries iniciais, e ainda não tinha entendido o que era a Educação. Cada etapa nova era formada por frustrações e angústias constantes. Até que li um poema de Paulo Freire, intitulado “Escola”. O texto mais lindo sobre Educação que alguém poderia ter escrito. É inspirador, algo que faz você limpar as lágrimas e ir para a Escola mudar a Educação.

Eu entrei para a formação de Professores sem estar ciente do que eu queria. Antes, bem, eu entrei porque ser professor poderia me fazer “ser alguém na minha vida”. Mas como eu não podia argumentar isso, eu dizia que era por que eu gostava de crianças. Dois argumentos absurdos e que me levaram a fracassar em todas as etapas. O grande Mario Sergio Cortella disse em uma palestra uma vez: “Você quer ser professor porque gosta de criança, mas qual criança”? Seu sobrinho bonitinho? Ou um aluno que solta meleca, é agitado e pode não te respeitar?”. E é a verdade. Educação não é uma busca para si, é uma relação que causa mudanças significativas em todo coletivo. Educação é ir juntos, é crescer juntos. Educação é amar, é ser amado; Educação é libertar, é ser livre.

Por mais que essa Educação ainda esteja distante, educação é isso, e ela começa dentro da Escola. No entanto, quase encerrando meu Ensino Médio e me formando professor com um pouco de entendimento do porque ser professor, um convite surge. Fui convidado para representar Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e o Instituto em que estudava em um grande e importante Seminário sobre o Futuro da Formação de Professores, organizado pela Fundação Cesgranrio.

A mesa era formada por alunos de Ensino Médio, o tema era o documentário Nunca me Sonharam, que reforçou muito do que eu já acreditava como Educação e embasou mais ainda minhas crenças de como transformar a Educação. O auditório do luxuoso Hotel Windsor Florida estava cheio. Celebridades da área da Educação, acadêmicos renomados e com histórias. Pessoas que em vários momentos mudaram a educação. Eu olhava para eles fazendo citações, várias referências, relatando convívios em países com metodologias diferente. Eu só pensava em ir embora, é claro que eu estava nervoso. Na hora de me apresentar eu errei minha idade e a série que eu estava cursando. Por pouco não derrubei a taça de água. Eu simplesmente sumi atrás da mesa.

A minha fala era a última, e quando todos os colegas contaram suas experiências, eu precisava falar das minhas. Comecei falando de um professor que disse que se eu não estudasse eu seria um empacotador de compras de mercado, como se fosse algo indigno.

Citei frases do documentário e tentei deixar o discurso mais acadêmico possível. Até que outra pergunta me puxou a realidade. Eu precisava falar que existem escolas que não têm água. Eu precisava falar de alunos que só vão às escolas para se alimentar porque é o único meio. Precisava falar que sem Riocard, os alunos não vão às escolas porque não têm dinheiro para se locomover. Eu precisei falar da favela, dos bairros pobres, precisei citar as crianças falando do homem que morreu no desabamento do prédio. Da depressão na adolescência e alta taxa de suicídio na juventude. Falei do Curso Normal e de sua desvalorização, do machismo. Eu desabafei todas as angústias, todas as frustrações e o
meu crescimento com elas. Levei tudo que eu enfrentei em todo processo de formação, da Educação Infantil até o Ensino Médio Normal. E quando eu finalmente parei, eu via as pessoas emocionadas, comovidas. Repletas de esperança e acreditando que a Educação do Século XXI precisava partir dessa perspectiva, e não nesse desespero tecnológico que tentam nos vender.

Aquela mesa, junto com toda a minha trajetória, me fez crer que a Educação é uma arma poderosa contra a pobreza, contra o crime, contra a fome, a desigualdade social. A educação e a escola são nossos refúgios. Podem nos tirar das Margens, devolver a esperança e dignidade, assim como faz a cultura, o esporte.

Eu sempre cito um pequeno poema do Jessé Andarilho em que ele diz “Vendo Pó, Vendo Maconha, Vendo Celular Roubado e Vendo Computador, eu cresci Vendo tudo isso e hoje sou Escritor”. A história de Jessé como escritor começa quando ele lê um livro do Julio Ludemir chamado No Coração do Comando. Livro cheio de palavrões, com tiros, mortes.

Nascido na Favela do Antares onde essa história fazia parte da rotina, Jessé finalmente encontra um livro com a sua cara. E depois de reprovar diversas vezes na escola, finalmente começa a se entender como alguém que é possível e escreve seu Livro. Hoje é referência como escritor, palestrante etc. A Escola pode proporcionar isso. Inclusão, valorização do lugar onde ela está situada e oportunidades de mudança. Assim, podemos crescer vendo e ouvindo milhares de coisas, mas no final, seremos escritores. Seremos aquilo que sonhamos. E por que não, Professores?

Searon Cabral é estudante do terceiro período do Curso de Pedagogia da Faculdade Cesgranrio

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2 Comentários

  1. Bruno Black
    Postado 1 de abril de 2020 as 16:07

    Você é nosso orgulho da Zona Oeste do RJ.

    Nós te amamos!

    Se tens um dom,seja!

    Bruno Black

  2. Binho Cultura
    Postado 4 de abril de 2020 as 04:01

    Searon Cabral é tudo o que acredito que há de melhor para o futuro da Educação no Brasil, se nossos governantes, professores e gestores educacionais derem ouvidos a esta geração.

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