Rio de Janeiro

Voltar

Dona Leda e o Dia Internacional da Mulher

07/03/2020 - 09:20

Com pouco mais de 20 anos, ela se formou em algo muito inusitado á época, na década de 50 do século passado, que era Química, na antiga Escola Técnica Federal de Química e foi trabalhar em uma fábrica. Na ocasião era algo bastante anormal uma mulher trabalhar dentro de uma Industria Metalúrgica.

A própria Industria de origem Americana Black Clawson, e todos os chamados “gringos” quando vinham ao Brasil, faziam questão de conhecê-la pois no próprio Estados Unidos não existiam mulheres atuando nessa área.

Moradora do bairro do Estácio, na Rua General Pedra composta de várias vilas de casas com imigrantes portugueses, essa rua desapareceu na reforma urbana realizada na região, para a construção da linha do Metro.

Com aquela estatura bem tradicional dela, baixinha e gordinha, ela todo o dia ia a pé, naquela caminhada onde se localizava a Fábrica na Rua Néri Pinheiro 240, onde atualmente fica a Universidade Coorporativa da Petrobras, e passava em uma região conturbada conhecida na ocasião “zona”, pois era no Estácio e abrigava a antiga “zona do meretrício” próximo a vila mimosa.

Postura dela chefiando uma fábrica inclusive com centenas de “peões”, era uma coisa bastante marcante e muito à frente a época. Na década de 60, quando nasci, ela usou cinta e roupa larga para esconder a gravidez, pois não existiam sistemas protetivos da mulher, nem qualquer tipo de garantia do emprego, e ela com medo de esconder foi trabalhar até um dia antes do meu nascimento, sem ninguém saber e voltou trabalhar 4 ou 5 dias depois.

Isso era um ato importantíssimo para ela, pois era importante para sustentar na ocasião sua família e seu filho que vinha.
Me lembro de cada momento de minha vida, pois, desde dos 3 ou 4 anos de idade comecei frequentar a Fábrica, e ela me botava trancado no laboratório Químico como se fosse uma creche, com aqueles tubos de ensaio, materiais e outros brinquedos para que pudesse muitas vezes trabalhar, quando não se tinha suporte de alguma pessoa, quando comecei depois a ter com Elizia que está comigo até hoje e considero minha Mãe de Criação.

Certamente isso influenciou na minha vida, na minha postura e na minha própria carreira de Engenharia, pois me lembro durante toda a minha vida sempre indo frequentar a Fábrica com ela, como criança, depois fazendo Curso Técnico e posteriormente fazendo Engenharia, ou seja, durante toda a minha formação.

Todos na Fábrica que era uma grande Fundição, primeiro no Centro da Cidade e depois na Pavuna me conheciam, ela fazia questão de mostrar que continuava sendo mulher, profissional e mãe, sendo dedicada e ao mesmo tempo dava a devida atenção ao filho.

Minha mãe, Dona Leda, criou e formou diversas gerações de profissionais, desde trabalhadores braçais, técnicos e até engenheiros. Se tornou a grande especialista na área de fundição para cilindros e máquinas de papel, especialmente a partir de ferro fundido modular que era sua grande expertise.

Trabalhou mais de 50 anos em uma única empresa, foi homenageada quando completou essa data histórica e fazia questão de ir trabalhar com quase 80 anos de idade, indo um táxi busca-la em casa.

Quando se comemora o Dia Internacional da Luta pelos Direitos da Mulher, vejo em Dona Leda, um grande exemplo de pioneirismo, pois sempre atuou e enfrentou os dissabores que existiam em sua época, onde sequer banheiro feminino existiam na Fábrica e adentrou no mercado de trabalho que hoje já é normal para mulheres, mas na ocasião ela foi uma das pioneiras no País.

Além da dor da perda que ainda rasga meu coração diariamente, meu orgulho por ter sido filho dela é imenso, quero nesse primeiro Dia Internacional da Luta dos Direitos da Mulher dedicar esse texto com muito amor para todas as mulheres, mais principalmente a minha mãe, Dona Leda.

 

Wagner Victer
Engenheiro, Diretor-Geral da ALERJ, Ex Secretário Estadual de Educação, Ex Presidente da CEDAE, Ex Secretário de Energia e Petróleo do Estado do Rio de Janeiro

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.
Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.



Deixe um comentário

O seu e-mail nunca vai ser publicado. Campos obrigatórios *

*
*