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A necessidade da Escola Afetiva em Tempos de Quarentena

27/04/2020 - 17:57

A cada dia que passa, vamos vivendo a indefinição sobre a duração da quarentena e volta às aulas; As escolas e faculdades vão aderindo e se capacitando cada vez mais para oferecer uma educação a distância de qualidade.

É claro, que esse meio tem seus problemas e não atende 100% da população. Outra questão, referente ao ensino a distância, se dá na falta de alimentação; em seu artigo “A EDUCAÇÃO EM MOMENTO DO CORONAVÍRUS”, Wagner Victer, ex-secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro,  vai nos dizer que “…em muitas escolas públicas estamos remetendo alunos para seus locais de moradia muito mais insalubres e sem a devida alimentação que vem da merenda escolar”.

Nesse artigo busco instigar uma reflexão sobre a função social da escola e a afetividade na relação Aluno-Professor, levando em consideração a quarentena e as tentativas de Ensino a distância.

Esse é o segundo artigo que trago o mesmo relato de um caso que vivi enquanto estudava no curso de formação de professores no Instituto de Educação Sarah Kubitschek. No período em que realizada os estágios obrigatórios, a escola ficou algumas semanas sem água e consequentemente, não tinha como preparar a comida. No entanto, era oferecido um lanche para os alunos antes de ir embora. Até que um aluno se aproximou e perguntou “Coe, tio. Tem comida aí hoje não?” Eu de maneira imatura respondi “ Hoje nós vamos pra casa comer a comidinha da mãe”, o aluno imediatamente e com semblante de tristeza respondeu “Eu não como em casa não tio, só tem como eu comer aqui”.

Esse diálogo triste, angustiante e extremamente frustrante, me fez entender que a Educação do Século XXI é muito além da tecnologia; ela começa no básico, que é oferecer alimentação diariamente. Fico pensando, a escola que ficou sem água e não ofereceu o arroz e feijão durante algumas semanas, desencadeou diversos relatos a respeito da falta de alimentação e da necessidade que os alunos tem… Imagina agora que as escolas estão totalmente fechadas? Nem o biscoito de maisena e umas frutas estão sendo oferecidas…

Nenhuma aula no Google classroom vai suprir essas necessidades.. Pelo contrário, as frustrações com o desempenho pela falta de concentração e a auto suficiência podem e estão causando tantos outros problemas..

No entanto, vou abrir uma reflexão a respeito da escola onde atualmente faço estágio, Dom Cipriano Chagas. Sendo uma colégio Católico, a escola Dom atende diversas comunidades carentes da zona sul do Rio de Janeiro. E trabalhamos com alunos que vivem diversas realidades, seja de violência, a pobreza extrema. Pensar em um EAD para essa realidade machuca, partindo da perspectiva que muitos alunos gostam do contato com o professor. Gostam do afeto. Talvez, a escola seja o único lugar que eles vão ter essa troca. Mas, como em tempos de crises precisamos aguçar a criatividade, as professoras viraram verdadeiras Youtubers.. Muito além de explicar o conteúdo, é sorrir, mostrar carinho. Dizer que está com saudade e demonstrar que o aluno importa. Os estagiários também estão nessa, correndo atrás de atividades interessantes, divertidas e que possam deixar essa construção de conhecimento mais leve. Como já citei, de pesado já basta a rotina de muitos deles.

A escola também realizou um grande mutirão e arrecadou cestas básicas e chocolates para as famílias antes da páscoa… Garantindo o alimento na mesa dos alunos.

José Pacheco vai nos dizer que a “A escola não é uma estrutura, a escola são as pessoas..” Percebem que essas ações não foram diretamente ligadas ao entendimento de Escola equipada, e sim de Escola humanizada, escola voltada para o trabalho social.

Há mais ou menos 1 mês criei um blog com uns amigos chamado Esperançar, cujo conteúdo é publicar textos de pessoas que encontraram através da arte inspiração para levantar a autoestima.. São textos de pessoas comuns que pintam, escrevem, cantam e que fazem disso uma solução para enfrentar os problemas.

Eu fico pensando como seria bacana se as escolas elaborassem atividades assim para os alunos, com dinâmicas em família, exercícios de criativos, incentivo a pesquisa, produção de materiais concretos etc.

Uma forma mais divertida para o aluno e para o professor e não ignoraria o desenvolvimento cognitivo, já que todas essas atividades contribuem para a formação do ser humano.

Imagina que legal os alunos de todo o ensino Fundamental I sendo incentivado a escrever um diário sobre a quarentena?  Os alunos do Fundamental II construindo mapas mentais com questões históricas e sociais? E os do ensino médio sendo estimulado cada vez mais a pensar na sociedade e na sua responsabilidade, levantando debates; Incentivar a realização de cursos online como os da Ulysses Guimarães, Getúlio Vargas e tantos outros. Ou até mesmo escrever um livro na linguagem que desejar, desabafando as angústias causadas pelo confinamento e suas histórias de vidas.

Todas essas atividades são interdisciplinares, transversais.. Norteiam todo o processo de conhecimento.  E, em relação ao Enem, existe um sugestão do Ex Secretário de Educação Wagner Victer, que as provas sejam elaboradas com o conteúdo programático de até o segundo ano do ensino médio, usando bancos de questões. Eu abraço essa proposta e vejo que é um debate de extrema relevância para a juventude..

Não pensem que está sendo fácil para os professores esse processo, muitos esqueceram o que é dormir e toda sua relação família estão de lado pela dedicação em elaborar conteúdos e aprender a manejar a plataforma.  Alguns estão passando pelo momento mais difícil de sua carreira docente e eu não vou  romantizar esse árduo trabalho como algo positivo.

Se para os alunos o processo precisa ser prazeroso, para o professor também. Por isso é extremamente necessário uma cobrança menor, mais tempo de planejamento e a capacitação para a utilização das novas ferramentas. Todas as atividades que sugeri no parágrafo anterior, tornam esse processo mais leve, e permitem o professor expressar-se artisticamente por um lado que até então não tinha feito… Imagina um professor de matemática elaborando mapas mentais, construindo materiais.. Tudo pela prática. Sem nenhuma grande obrigação… Todo professor tem o conteúdo que gosta mais e consegue torná-lo transversal, em tempos de quarentena, esses conteúdos deveriam ser mais valorizados.

Entendo que não houve um planejamento para esse processo de educação, a pandemia pegou todos de surpreso, inclusive os atuais gestores das secretarias de educação e diretores de escolas. No entanto, ler relatos dramáticos de alunos e professores com mais de 1 mês de quarentena a respeito dessas aulas, é destruir talvez um pouco dos sonhos de cada agente do processo. É mais que necessário construir uma diálogo e uma relação afetiva, entender que o século XII desencadeou em grande escala problemas como ansiedade e depressão, e que os momentos de crise e medo, tornam as pessoas mais vulneráveis a isso.

Contudo, peço que valorizem cada ser humano que tem conseguido passar por isso sem sufoco e tem correspondido muito bem. Mas não desvalorize aqueles que ainda não se encontraram, sejam alunos, professores, pai e mãe. É mais que necessário criar uma corrente, construir do zero o sentido da palavra comunidade e se ajudar para que possamos sair dessa crise mais criativo e ciente que a Educação é o melhor processo de transformação da nossa sociedade, e que a escola é o nosso patrimônio, nosso segundo lugar preferido depois da nossa casa.

 

Searon Cabral, Professor de Educação Infantil e séries Iniciais

Estudante de Terceiro Período do Curso de Pedagogia na Faculdade Cesgranrio

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